O Brasil vai virar Venezuela, não adianta!

Em 1998, o militar Hugo Chávez ganhava uma eleição e se tornava o presidente da Venezuela. Naquela época, o supernacionalista Chávez trabalhava apenas em prol de dois objetivos: garantir a “refundação” da República Venezuelana (o famoso “acabar com tudo que está aí”) e satisfazer seu programa de manutenção de poder. Seu programa, um tanto quanto populista, focava muito mais na reforma do capitalismo venezuelano que na destruição do mesmo.

Os primeiros meses foram destinados a destruir todo o sistema de balanço de poderes que existia na Venezuela e destacar o quanto era necessária uma nova constituição para “aqueles novos tempos”. Enquanto isso, Chávez visitava a Bolsa de Nova York e clamava por investimento privado e estrangeiro em seu país. A intenção era construir um projeto autoritário, não socialista.

O tal “socialismo do século XXI” só veio a aparecer mais tarde. Foi a polarização da sociedade venezuelana que fez com que Hugo Chávez resolvesse consolidar seu poder na economia também, principalmente depois da tentativa de golpe contra ele, em 2002 (uma ironia isso acontecer uma década depois de sua própria tentativa de golpe). Garantido o controle sobre a economia, Chávez acreditava que conseguiria sustentar o seu projeto de poder com mais fôlego.

Chávez nunca foi marxista. Chávez sempre foi autoritário. Em 1996, ele se dizia não-marxista. Com sua guinada à esquerda, passou a aceitar mais o discurso de Marx. Em 2009, disse que suas políticas eram tão guiadas pelo marxismo quanto pelo cristianismo. O que Chávez tinha era aquela visão do controle da economia pelo Estado, presente nas ditaduras militares da América Latina, como o Brasil e Argentina (mas não no Chile).

Nem sempre a Venezuela foi um fracasso econômico. No período em que governou, Hugo Chávez deu sorte. Muita sorte. O petróleo, principal produto venezuelano, pulou de US$ 20 para US$ 200 enquanto ele esteve no poder. Em 2004, o PIB chegou a crescer quase 20%, para depois desacelerar e passar os 3 próximos anos com crescimento próximo de 10%. Isso garantiu a ele a possibilidade de fazer uma agenda de assistencialismo, inflando os gastos públicos, enquanto consolidava seu projeto autoritário.

O que Chávez não contava era com a “virada da maré”. Começou com o fracasso da gestão da PDVSA (a Petrobras venezuelana, vamos chamar assim), que conseguiu ver sua produção diária cair de 3,5 milhões de barris de petróleo em 1999 para 2,5 milhões no momento em que o Chávez morre. Isso enquanto a empresa dobrou o número de funcionários, muito disso por conta do excessivo aparelhamento da petrolífera.

A segunda facada no coração de Chávez foi a queda monstruosa no preço do petróleo, como todas as commodities. E o que acontece em economias com receitas em queda e gastos em alta? Caos. Sem nem tentar dar um choque de austeridade para resolver a questão, a Venezuela perdeu sua capacidade de se endividar e passou a emitir papel moeda. Resultado? Inflação em 1.000.000%, queda de 40% do PIB e emagrecimento geral da população por falta de comida.

A situação econômica é tão ruim que uma profissão que vem crescendo por lá é do “jogador de jogos online”. O sujeito gasta horas do seu dia para obter itens em jogos e vender para estrangeiros por 5 ou 6 dólares por dia. Isso é o suficiente para ganhar mais que médicos ou engenheiros, tamanha a destruição do país.

Quando a classe média brasileira branda que o Brasil vai virar Venezuela, o medo não é pelo autoritarismo. É pelo fracasso da economia venezuelana, que agora envia ondas e ondas de refugiados para os países vizinhos, entre os quais, o Brasil. Só que esse desastre econômico foi um processo que demorou 15 anos para se concretizar e só se realizou pela imensa falta de democracia naquele país. Tivesse um processo democrático verdadeiro, Chávez e Maduro teriam sido derrotados ou veriam seus poderes de causar maldades fortemente reduzidos.

Temos uma vantagem: nossa economia é muito mais diversificada que a venezuelana. E, hoje, muito mais democracia e liberdade. Se tomamos um caminho errado, tiramos o governante e o substituímos. Isso aconteceu com a Dilma (responsável pela maior recessão de nossa história), quer você ache que foi correto ou não.

Cá estamos nos preparando para uma eleição que pode selar o nosso caminho para nos tornarmos algo mais parecido com a Venezuela. Os dois principais candidatos, Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, possuem, em maior ou menor grau, semelhanças com a situação da Venezuela.

A começar pelo Jair Bolsonaro. De alguma forma, ele representa esse chavismo-raíz, cuja única preocupação é em ser autoritário. Bolsonaro é um oportunista: depois de 20 anos no Congresso fazendo muito, muito pouco, percebeu que sua figura – por algum motivo que nem ele entende – virou símbolo do tão necessário combate à corrupção. E percebeu que o momento para ser candidato era agora.

Como um deputado medíocre do partido mais corrupto do Brasil (PP), que tem funcionário fantasma, que usou dinheiro sujo da JBS em campanha, que usa auxílio-moradia para “comer gente”, virou paladino da luta contra corrupção? Como um cara que já foi de um partido de esquerda (PTB) virou símbolo do anti-esquerdismo? Como um sujeito que votou contra o plano real e privatizações virou o liberal do Brasil?

Ele não é. Simples assim. Ele é o Chávez 1999-2002 – apenas interessado em “acabar com tudo que está aí” e garantir sua perpetuação no poder. Suas declarações são todas nessa direção e boa parte de suas propostas são em direção a acabar com o sistema de balanceamento de poder no Brasil (pretendia, por exemplo, dobrar o número de ministros no STF). Seu vice já disse em fazer uma constituição com notáveis (e sinceramente? Já começa a se movimentar, inclusive CONTRA o Bolsonaro).

Em economia, ele claramente prefere um estado forte. O deputado diz que não entende de economia e que prefere que perguntem para seu posto Ipiranga (Paulo Guedes). Bobagem. Pressione-o a respeito das políticas econômicas da ditadura (que foram um fracasso, nos levando a duas décadas de inflação alta e estagnação econômica) e ele lhe responderá “você acha que a iniciativa privada construiria Itaipu Binacional?”.

Acuado no poder tenho certeza que ele tomará as mesmas decisões de Chávez no começo de sua carreira política: fechar congresso, constituinte, aparelhamento de tudo por gente leal. Bingo, sua manutenção no poder e “refundação do sistema político brasileiro”. O que for que isso signifique.
E com a manutenção do poder dele, vem a impossibilidade de tirá-lo em caso de merda. Ele é a representação da Venezuela autoritária que eu não quero ver acontecer no Brasil.

Já Haddad é um cara moderado, mas o PT vem se aprofundando ainda mais no discurso bolivariano – como forma de agradar a militância, talvez, o que me assusta ainda mais. Em seu programa de governo, defende o uso de plebiscitos como forma de minar o poder do congresso em questões que eles não conseguem passar (Chávez fez!) e “garantir as condições para uma nova constituinte” (Chávez fez! Maduro quer fazer agora).

O PT vem dando discursos públicos afirmando que a Venezuela é um “exemplo de democracia”, o que é uma grande, grande mentira. A Venezuela é um arremendo de sistema autoritário que passou uma década fingindo que é uma democracia. Chamá-lo de democracia é um insulto e uma demonstração de que, para eles, democracia não é um valor tão central assim.

Além disso, o partido atentou duas vezes contra a democracia brasileira quando esteve no poder. Primeiro, o mensalão, onde o executivo (através de pagamento de dinheiro) passa a controlar o legislativo. Não há discussão, não há dissenso. Apenas um congresso dócil para garantir a bolada e a agenda do governante. Isso não é democracia.

Depois, o aparelhamento excessivo de empresas estatais e o tráfego de influência, corrupção passiva. Não é coincidência, nem perseguição, que a liderança petista esteja toda presa. Você pode achar que a prisão do Lula é injusta, mas o Palocci – ministro da Fazenda por seis anos – é réu confesso. Zé Dirceu foi condenado algumas vezes (e agora está dando declarações). Os tesoureiros todos estão envolvidos em esquemas de Caixa 2.

O PT não inventou a corrupção no Brasil, mas fez uso sistêmico dela para governar e garantir a sua manutenção no poder – ferindo a democracia. E vem nos últimos anos questionando sistematicamente todas as instituições brasileiras, que é outra coisa que vem direto do manual chavista (lembrando, o seu movimento queria refundar a Venezuela e acabar com todas as instituições!). Precisa virar oposição.

O partido claramente não fez sua mea culpa. Haddad fica fazendo campanha tentando tergiversar sobre corrupção e Lula comanda da cadeia uma campanha de pagamento de dinheiro para campanhas políticas de outros partidos com o intuito de enfraquecer a campanha de Ciro Gomes. Uma espécie de mensalão ANTES de ser eleito. E eu nem estou falando aqui do fracasso econômico da Dilma, que o partido teima em esconder, subestimando a inteligência do povo brasileiro.

Nesse segundo turno, ao meu ver, a escolha do brasileiro é simples: você quer que o Brasil vire a Venezuela do autoritarismo ou a Venezuela do “socialismo do século XXI”?

Bom voto.

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