Como funciona o draft da NBA, NFL, MLS, NHL e MLB?

Todo começo (ou final) de temporada em ligas de esportes nos Estados Unidos acontece um mesmo evento: o draft, processo de escolha dos jogadores universitários pelos times profissionais. Isso acontece na NBA, de basquete, na NFL, de futebol americano, MLS, de futebol, MLB, de baseball e na NHL, de hockey de gelo. Tem drafts que são mais relevantes que outros (o da NBA é super relevante, o da MLS é um lixo, por exemplo), mas todas as ligas possuem isso.

Se você acompanha apenas o futebol brasileiro e europeu, os esportes americanos possuem uma estrutura diferente do que você está acostumado. A começar pelo fato de que não existe rebaixamento entre as ligas: se você ficar em último, você não cai de divisão. Na verdade, você ganha a possibilidade de selecionar um dos melhores atletas que estão vindo para a liga!

Historicamente, isso é super importante para manter a competitividade da liga. Os melhores jogadores vão para os piores times, maturam, transformam os times em bons. Quando esse time está ganhando, o time que era bom anteriormente já perdeu os melhores atletas, ficou ruim e agora está flertando com as últimas posições – que lhe garantem uma boa escolha no draft, que reinicia esse ciclo.

Mas como isso funciona? Vamos entender:

Formação de atletas nos Estados Unidos

Se você quer ser um atleta de futebol no Brasil, é bom buscar cedo um clube, como o Corinthians, Flamengo, Atlético Mineiro ou Bahia, ingressando entre os 7 e 8 anos de idade no que se chama de “categorias de base”. Nos Estados Unidos, a formação é completamente diferente e passa pela escola e pela faculdade, que são os dois grandes pilares de formação por lá. Isso quer dizer que os times profissionais não tem “categorias de base”, apenas o profissional.

Isso quer dizer que um garoto de 8 anos que queira seguir carreira no esporte, o faz através de sua própria escola. Existem milhares de ligas em todo território americano que concentram os prospectos de atletas, então quando algum jovem começa a demonstrar interesse e talento em algum esporte, ele acaba participando de seu time primeiramente.

Depois disso, é comum que os melhores atletas mirins sejam chamados para estudar em escolas que possuem times especializados em seus esportes, muitas vezes recebendo bolsas de estudo para isso. É comum ver atletas promissores de estados pequenos em escolas especializadas em estados maiores – várias escolas na Califórnia e Nova York possuem programas de captação.

Também é ocorrência comum que esses atletas declarem em qual faculdade jogarão com anos de avanço – sobretudo no basquete, esporte que é comum ver atletas de 12 ou 13 anos se declarando pelas suas faculdades. Depois de jogar 1 ano na faculdade (no caso da NBA) ou 3 anos (no caso da NFL), eles podem se declarar para ir para o draft do ano seguinte, onde serão selecionados. Jogadores profissionais de fora dos Estados Unidos só precisam ter completado o ensino médio há pelo menos 1 ano. Na NHL, não é necessário, apenas ter entre 18 ou 20 anos de idade.

Picks no Draft

Ao chegar na noite do draft, os times das grandes ligas podem escolher seus jogadores em um evento público. Mas quem escolhe primeiro e quem escolhe por último? Para manter os esportes americanos competitivos, os times que tiveram o pior desempenho são os que escolhem os principais jogadores. Isso garante a competitividade pelos próximos anos, conforme os jogadores vão maturando.

Isso é completamente revolucionário por uma questão: é impossível um time dominar o esporte por décadas. Ele sempre estará sujeito as variações de elenco e dificilmente conseguirá manter uma posição dominante na liga. Claro que para chegar nisso foi necessário uma compreensão de que ao melhorar a competitividade da liga, melhora a questão para todos os times.

Na NFL, esse processo de determinar quem vai escolher primeiro é fácil: o time com o pior aproveitamento na liga ganha a primeira posição (o direito de escolher o jogador que quiser primeiro), o segundo time fica com a 2ª escolha e assim por diante até completar as 32 primeiras escolhas (já que são 32 times). Aí começa a segunda rodada, com as mesmas posições. No total, são 7 rounds com 224 escolhas, um processo que demora alguns dias.

Loteria do Draft

Na NBA e na NHL, porém, há um outro fenômeno, que é a loteria. Alguns dias antes do evento, os times que não foram para os playoffs são sorteados para decidir qual a ordem das primeiras escolhas – 14 no caso da NBA e 15 no caso da NHL. O restante das escolhas segue a classificação dos times em seus campeonatos, do pior ao melhor. São 60 escolhas no caso da NBA e 217 escolhas na NHL.

Um ponto interessante é que os piores times possuem maiores chances de ganharem a loteria e escolher primeiro, mas é possível que um time mais forte pegue a primeira colocação. É o caso da NBA em 2019, quando o New Orleans Pelicans ganhou a 1ª colocação, mesmo sendo o 5º time mais forte entre os 14. Isso é feito para ser um desincentivo a perder, já que muitos times perdem de propósito para aumentar suas chances de escolher as principais promessas do esporte.

A loteria geralmente é um evento por si só, até mesmo televisionado nos Estados Unidos. Muitos torcedores se juntam para assistir e descobrir quem vai ficar com a primeira escolha nos drafts – que é tão importante que pode mudar completamente a estratégia dos times para os anos seguintes. A loteria dá um grau de imprevisibilidade que é importante nas ligas.

A importância de ter a primeira escolha no draft

Um ponto que não deve ser subestimado é que existe uma diferença enorme entre ter a primeira escolha do draft na NFL e ter a primeira escolha na NBA. No basquete, o poder de transformação de escolher primeiro é muito maior do que no futebol americano. Um time da NBA tem, no máximo, 15 atletas, sendo que existem 5 principais que jogam a maioria dos minutos de uma partida. Um atleta, então, faz muito mais diferença do que em um time de futebol americano, que conta com 53 times em um time profissional.

Desses 53, um único jogador faz muito mais diferença do que todos os outros: o quarterback. Ele participa de todas as jogadas ofensivas e impacta muito mais o resultado que todos os jogadores. Se um time já tem um quarterback de qualidade, tende a buscar draftar outros jogadores que possuem menos impacto no jogo, mas que são necessários no elenco. Por isso, é comum dizer que a NFL tem um draft que leva em conta mais a posição que o talento.

A NBA, por outro lado, tende a buscar mais o talento individual dos jogadores, visto que cada jogador impacta mais o jogo. Atletas com maior potencial são priorizados, ao invés de buscar suprir necessidades de posição imediata, até muito pelo fato de que é mais fácil trocar um atleta visto pelos outros times como um grande talento por veteranos que consigam resolver estas questões.

Barganhas disponíveis

Essa diferença entre as duas ligas não é a única. Um ponto importante a ser ressaltado é que um jogador de NFL passa três anos na faculdade, o que faz com que ele seja muito mais conhecido pelos times na hora do draft do que os jogadores da NBA. Isso faz com que o grau de assertividade das escolhas na NFL seja, normalmente, maior que os da NBA.

Atualmente, é muito comum um jogador ser draftado na NBA após apenas uma temporada na faculdade, o que aumenta os riscos. Muitos jogadores escolhidos em 1º, 2º ou 3º lugar (os mais nobres) acabam se mostrando medíocres ao longo de suas carreiras, enquanto jogadores escolhidos lá embaixo acabam tendo mais sucesso. Tome o caso de 2002, por exemplo: a 1ª escolha ficou com Kwame Brown, nunca escolhido nem para um jogo de All-Star, enquanto o jogador de mais sucesso da turma foi Tony Parker, escolhido na 28ª posição.

O draft de 1984 é talvez o maior exemplo de que uma escolha mais tardia pode acabar sendo melhor. O Houston Rockets tinha a 1ª escolha, o Portland Trailblazers tinha a 2ª e o Chicago Bulls tinha a terceira. Hakeem Alajuwon foi escolhido com a 1ª, e de fato se tornou um dos maiores jogadores da história, ganhando dois títulos pelo seu time, várias vezes escolhido como melhor pivô e participando de vários All-Stars. O Portland jogou fora sua escolha ao pegar Sam Bowie, que nunca conseguiu jogar direito na NBA e não durou muito.

Com a 3ª escolha, o Chicago Bulls conseguiu Michael Jordan, o maior jogador da história e que fez o Chicago Bulls se tornar um dos nomes mais conhecidos do esporte no mundo. É difícil dizer que Houston se arrependeu, afinal Hakeem teve bastante sucesso, mas o Portland provavelmente fez a pior escolha na história da NBA. E não para aí: dois outros jogadores que foram parar no Hall da Fama (e são considerados alguns dos melhores da história) foram selecionados depois: a 5ª escolha foi Charles Barkley e John Stockton, o maior assistente da história do basquete, foi escolhido apenas em 16º.

Alguns times de sucesso tentam garimpar boas barganhas no draft. O San Antonio Spurs tende a buscar jogadores de fora dos Estados Unidos, que são menos conhecidos. Foi assim que pegaram o francês Tony Parker, com a 28ª escolha e o argentino Manú Ginobili, o maior sulamericano da história da NBA, com a 57ª escolha. Nos últimos dois anos, quem apostou nisso foi o Denver Nuggets, que escolheu Michael Porter Jr. em 2018 com a 14ª pick e Bol Bol com a 44ª em 2019. Ambos são jogadores que possuem muito talento, mas tiveram lesões sérias na faculdade. Se um deles vingar, foi uma excelente barganha.

O Golden State Warriors montou seu primeiro time campeão com Stephen Curry (7ª escolha em 2009), Klay Thompson (11ª em 2011) e Daymond Green (35ª em 2012). Todos eles tiveram mais sucesso em quadra que os jogadores escolhidos antes deles, embora craques tenham participado desses drafts, como James Harden (3ª escolha em 2009), Kyrie Irving (1ª em 2011) e Anthony Davis (1ª em 2012). Curiosidade: o maior craque de 2011 é na verdade Kawhi Leonard, a 15ª escolha.

Na NFL também existem barganhas. A maior delas é Tom Brady, o multicampeão e considerado maior jogador da história, que foi escolhido apenas na 199ª posição. Todos os times tiveram ao menos seis oportunidades de escolher ele e acabaram escolhendo outros atletas. Sorte do New England Patriots, que conseguiu a maior barganha da história de todos os drafts.

Trocas entre times

É muito comum, porém, que times façam trocas de jogadores visando uma boa posição na noite do draft, para suprir suas necessidades ou para conseguir uma negociação melhor. É permitido trocar “picks”, ou seja, você pode trocar um jogador por uma escolha futura em um draft. Muitos times em reconstrução tentam juntar o máximo de escolhas possíveis, para aumentar sua chance de conseguir draftar os maiores craques.

É comum um time que está sem sucesso trocar seu melhor jogador por 3 ou 4 escolhas futuras e “focar no futuro”. Algumas vezes, com escolhas que estão a vários anos de acontecer. Brooklyn Nets trocou suas escolhas de 2019 em 2012 com o Boston Celtics, por exemplo.

Também é comum trocas na noite do draft, quando um time está muito interessado em escolher um jogador e outro, que tem outra escolha em mente, escolhe antes. É o que aconteceu em 2018 com Luka Doncic e Trae Young. O Dallas Mavericks queria Doncic, mas só tinha a 5ª escolha, enquanto o Atlanta Hawks queria Young, mas escolhia em terceiro. Com a 3ª escolha, o Hawks escolheu Doncic e pediu para o Mavericks escolher Young em 5º. Eles trocaram os dois jogadores, mas o Mavericks teve que dar mais uma escolha em 2019 para o Hawks fazer a troca. Essa “chantagem” virou Cam Reddish, escolhido em 10º em 2019 pelo Atlanta Hawks com a escolha que seria do Mavericks.

Draft da MLS

De todos os esportes americanos, o draft mais inútil é o da Major League Soccer, a liga de futebol, que ainda é um esporte fraco nos Estados Unidos. Praticamente todos os melhores jogadores vem de fora do draft, contratados após seus contratos expirarem no exterior. Além disso, todos os times da MLS são autorizados a terem categorias de base, como o futebol aqui no Brasil.

Contudo, eles só podem contratar alguns jogadores de suas categorias de base, o resto vai para o draft, onde podem ser escolhidos livremente pelos outros times. Se os Estados Unidos quiserem ser uma potência no futebol também, precisam desenvolver um sistema para revelar jogadores parecido com a NBA e NHL, que também são esportes globais e dominados pelos Estados Unidos (na NBA) ou Canadá (no caso da NHL). Esse ainda não é o caso do futebol.